Um pirata no Brasil

Quando pergunto a Tobias Andersson qual é o seu papel no PirateBay, o maior site de compartilhamento de arquivos do mundo, nem ele sabe responder direito: “Estou no site desde o início”, explica por e-mail, “mas o trabalho no PirateBay é muito anárquico, para dizer o mínimo. Não há papéis específicos na equipe, da mesma forma que não há um líder ou um dono. Todo mundo faz o que quer. Falamos todos os dias pelo mesmo canal de informações, todo mundo participa de todos os processos. Pensamos de forma bem parecida e quase não há controvérsia entre nós”. Mas, para todos os efeitos, Andersson age como o porta-voz do grupo, que é representado pelas figuras de Fredrik Neij, GottfridSvartholm e Peter Sunde. Os três, suecos como Andersson, são os réus em um julgamento que teve seu veredito em fevereiro do ano passado, mas que ainda se arrasta através de novos recursos e instâncias. E Andersson vem a São Paulo como principal convidado do festival de cultura da internet YouPix, que acontece no início de julho e também terá mesas de debates oferecidas pela GALILEU. No evento, o pirata vem falar sobre sua experiência no PirateBay, política mundial e o futuro da internet. Ele também prepara um livro sobre os 10 anos do site — “e minha estada em São Paulo fará parte do livro”, adianta.



* Qual é a situação do PirateBay? Os servidores de vocês foram para a Islândia? 

Não, apenas o domínio está hospedado na Islândia. Nossos servidores estão espalhados pelo planeta eestamos transferindo todos os dados para serviços na nuvem. O domínio deve continuar mudando sempre, para estarmos um passo adiante. Há também um plano para começar um projeto via Kickstarter para comprarmos o domínio .bay.

* O que você acha da pirataria digital ter virado uma bandeira política, com os Partidos Piratas pelo mundo? 

Mark Getty, da agência de fotos Getty, disse que “a propriedade intelectual é o petróleo do século 21” e esta frase é bem interessante. Nós do PirateBay anunciamos que 2012 seria o ano da tempestade e foi isso que aconteceu: tivemos as brigas contra a Sopa [projeto de lei norte-americano que endurecia a vigilância e a punição aos direitos autorais], o Acta [tratado internacional com fins semelhantes] e o veredito de culpado contra os três fundadores do site — um deles está preso por um ano e os outros dois aguardam julgamento em liberdade, mas o site continua funcionando independentemente do julgamento. Acho que os próximos anos serão ainda mais inquietos.

* Então você acha que a legislação digital deve endurecer nos próximos anos? 

Acho que teremos duas opções: ou um estado de vigilância ou uma internet independente. Todos ganhariam caso a última alternativa prevalecesse. Modelos de negócio prosperariam e pessoas de todo o mundo usariam a internet para aprender sozinhas. Mas isso não acontecerá sem briga. Por outro lado temos outros fatores, como o crescimento da capacidade de armazenamento. A Lei de Krysder diz que o espaço de um HD dobra a cada 20 meses, o que quer dizer que, em 10 anos, teremos toda a história da música em nossos bolsos.

* O que você acha de Kim Dotcom, do Megaupload, que foi caçado pela justiça norte-americana? 

Kim Dotcom é um esquisito megalomaníaco que poderia ter se dado melhor se não pensasse apenas em ganhar dinheiro. Sites de armazenamento como o Mega não são a forma certa de agir. A internet precisa ser aberta e não se tornar um festival de “pague pelo arquivo”.

* Você acha que o streaming de serviços como o Spotify irá suplantar o download? 

Remixando as clássicas palavras do Chuck D, do PublicEnemy: desculpe-me, mas f*-se o Spotify. Ele não resolve nada, pois é parcialmente mantido pelas três grandes gravadoras, que não submeteriam seus catálogos caso não fossem sócias. O que quer dizer que eles ainda ganham mais dinheiro que os artistas a cada execução. Isso inclui artistas que não são contratados por estas três gravadoras. Acredito que a evolução da tecnologia terá seu papel e veremos redes descentralizadas e anônimas onde amigos trocam conteúdo gratuitamente.

* E quais são os próximos passos do PirateBay? 

Espero que apareça algum sistema que torne o PirateBay obsoleto. Dez anos é muito tempo para um site como este. Adoraria ver um aplicativo com um cliente torrent embutido que poderia utilizar todos os agregadores de metadados disponíveis. Algo que nos tornasse livres de sites e domínios...


Revista Galileu - http://revistagalileu.globo.com

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